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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Mãe filha e a morte que não chega - Parte 1 (conto)



- Vamos lá, mãe, faz força se não eu não consigo – disse, segurando o braço dela com firmeza.
            Já não conseguia mais levantar sozinha desde o começo do ano. Todo o dia era a mesma coisa quando ela precisava sair do sofá ou da cama para ir ao banheiro ou para a mesa da cozinha – únicos trajetos que ela ainda percorria. Seu braço era tão frágil, só osso, e estalava sempre que eu o segurava. Emagrecera tanto de uns anos pra cá, mas também, ela só aguentava uma refeição por dia. Dormia às onze da noite e acordava só depois do sol se pôr. Pra mim, era um alívio. Sabia que era errado, mas não teria meios de cuidar dela e da casa. Além do mais, desse jeito, pra quê acordar?
            Fiz um pouco de carne e comprei pão pra acompanhar.
            - Quer que eu ponha a carne dentro do pão ou prefere comer os dois juntos? – perguntei depois de acomodá-la à mesa, mas ela não me ouviu, só ficou olhando pra minha cara com um meio sorriso no rosto. Falei um pouco mais alto, nada, então outra vez ainda mais alto.
            - Tanto faz. Como você achar melhor.
            - Não tem como eu achar melhor, é você quem vai comer, mãe.
            - Pode ser dentro.
            - O dente aguenta?
            - Acho que sim.
            Fiz do jeito que ela pediu, mesmo sabendo que ela não ia aguentar. Por que já não cortei a carne de uma vez? Essa é uma coisa que sempre fazia com ela, dar opções mesmo sabendo o resultado. Vendo em retrospecto parece um jogo sádico, mas não. Acho que estou acostumada ao tempo em que ela podia escolher e tinha todos os dentes na boca, todos ainda resistentes, e quando ela ainda andava sozinha, e respondia perguntas normalmente, pensando por si própria. Foi da noite para o dia. Ela era tão esperta, lúcida, rápida. Foi só completar oitenta anos, quando ela teve um enfisema pulmonar seguido de um princípio de infarto, que tudo mudou. O médico me disse, quando ela ainda estava entubada na UTI, que ela era um caso imprevisível, uma bomba-relógio, que podia viver mais uma semana ou mais seis meses. De seis meses não passaria. Eu fui vê-la, meu rosto estava inchado de tanto chorar prevendo a sua morte. Estava acordada, deitada na cama com uma expressão sofrida, abatida como eu nunca a tinha visto antes. Pediu à enfermeira papel e caneta, e nessa hora meu coração disparou. Jurava que seriam as suas últimas palavras que ela escreveria ali, já que o tubo enfiado pela garganta lhe impedia a fala. “Tá doendo, tem como tirar?”, o bilhete dizia. Era como se ela não soubesse o que lhe tinha passado, como se sua saúde estivesse perfeita e seu problema não fosse seus órgãos vitais em mal estado, mas o tubo que devia estar lhe arranhando por dentro. Se dava para tirar? Nenhuma noção, de fato, de que sem aquilo ela nem respiraria. Respondi que não, minha aflição já tinha passado. Por algum motivo, apesar do pessimismo do médico, tinha certeza de que ela não morreria naquele hospital. Se morreria em seis meses ou não, isso não tinha como medir naquela época. Uma coisa que eu sabia, enquanto ela tentava rasgar e puxar a carne e o pão, sem sucesso, apenas tirando o bife inteiro de dentro das fatias, deixando o pendurado na boca, lhe sujando todo o queixo até que seu único dente debaixo cedesse e largasse a carne insalivada sobre o prato – que ela já estava com noventa e cinco anos, e apesar de todo o sofrimento, nada nela dizia que estava perto da morte. Fui ao armário e lhe dei um garfo e faca. Ela esfregava uma folha de papel toalha na boca, deixando algumas migalhas espalhadas ao redor dos lábios, que eu limpei com outra folha de papel toalha, e ela protestou a minha intervenção desviando a cabeça e gemendo reclamações.
            - Tem que limpar, vai ficar com migalha na cara agora?
            - Devagar.
            Pensei em dizer que estava devagar, que fui cuidadosa, mas não importava mais. Os gemidos eram a parte mais dolorosa. Eram rítmicos, profundos, acompanhando a respiração. Soavam como um cansaço eterno, e me afligiam. A cada gemido dela eu sentia como se me roubassem o ar, eu sentia toda a exaustão junto comigo, era um peso que eu carregava nas costas o dia todo, sem trégua, nem quando ela dormia, nem quando eu estava longe, porque o som já estava gravado na minha mente e se repetia; se tornara parte da minha realidade, mesmo que ela morresse eu estava certa de que continuaria a ouvir seus gemidos até que eles se tornassem os meus próprios. Mas ela ainda tem uma vantagem. Estou aqui para dividir esse peso que ela carrega, para ajudá-la a se levantar. Eu não tenho mais ninguém e prefiro não pensar na minha velhice, que talvez já tenha chegado. As mãos dela tremiam de tanta força que ela tentava fazer para cortar a carne. Eu cortei o meu pedaço, que até então não tinha conseguido tocar, estava macio. Levantei da minha cadeira, peguei o garfo e faca das mãos dela e me pus a cortar por ela.
            - Não precisa. Eu tô fazendo.
            - Como não precisa? Daqui a pouco o prato cai da mesa e essa carne continua inteira.
            - Você implica comigo.
            Implico? Talvez, mas naquela hora eu não sabia. Nunca fui enfermeira, porra. Não sei cuidar de outras pessoas. A única coisa que eu queria era que por um instante ela reconhecesse que não a atirei em um asilo, embora pudesse, embora qualquer outra pessoa na minha condição já o teria feito. Esse poderá ser o meu destino, então por que não poderia ser o dela? Mas eu não conseguia nem imaginar uma coisa dessas. Dizem que os asilos não são mais como eram antes, que até são melhores para o idoso já que lá eles recebem assistência médica constante e, principalmente, profissional, e lá eles têm convívio com outros idosos, uma vida social, muito possível mais convivência social do que eu tive nesses últimos quinze anos. Só que não me desce. A imagem do velho esquálido, sempre aguardando uma visita como um cão abandonado esperando o retorno da família que nunca vem, solitário em um quarto pequeno a moda hospitalar, alimentado com todo o tipo de remédio e sedativos, maltratado por uma gangue de enfermeiros graduados em sadismo. Com certeza isso não é mais uma realidade tão comum – assim como tenho certeza que isso acontece em muitos lugares -, mas essa deve ser a impressão do abandonado.
            Agora ela conseguia comer, devagar, mastigando como se todo o movimento da mandíbula fosse um trabalho complexo. Hum...hum...hum, e agora os gemidos eram úmidos, e ela tossia enquanto mastigava fazendo voar migalhas para todos os lados. Não tinha mais estômago para comer com ela, mas seria muito humilhante simplesmente deixá-la lá solitária na cozinha. Botava comida no meu prato e enrolava, fingia lhe prestar atenção para não ter que comer enquanto ela mastigava com a boca aberta por não conseguir sustentar direito a parte inferior da mandíbula, e porque às vezes ela tinha que parar no meio da mastigação para respirar. Quando ela terminava e eu a levava para ver televisão na sala, minha comida já estava fria. Vez ou outra eu requentava, mas aquele foi um dia que eu não tive vontade nem de fazer isso e comi do jeito que estava.
            Todos os dias, após a refeição, eu lhe dava seus remédios. Até o momento eram nove pílulas, uma para cada coisa – pressão, intestino, rins, coração, então outra servia para controlar os efeitos colaterais de uma, e outra ainda controlava os efeitos colaterais dessa. Isso já era automático, ela nem perguntava nada. Servia-lhe um copo d’água, ela tomava de três a quatro pílulas de uma vez, sem reclamações.
            - Quer ir ao banheiro?
            - Agora não.
            - Tem certeza?
            - Não quero agora.
            - Tá, mas se sentir qualquer coisa avisa, se não é tarde demais.
            Liguei a televisão. Assistiria o jornal, a novela, e por volta das dez e meia pediria para ir se deitar, então dormiria até às seis da tarde do dia seguinte. Nesse meio tempo, ela iria me acordar pelo menos cinco vezes na madrugada para ir ao banheiro. O seu chamado era fantasmagórico. Repetia meu nome com voz arrastada, quase um choro, quantas vezes fosse necessário para me acordar, e eu pulava da cama toda vez, pensando que dessa vez seria algo grave, um infarto, um último suspiro. Não importa quantas vezes por noite, para mim é sempre o mesmo pavor, e eu prefiro não dormir a ser acordada por esses chamados.

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Agora que terminei meu livro - estou só dando um tempo pra começar as revisões -, quero me dedicar a alguns contos, já que deletei muitos da primeira fase - a fase obscura - do blog. Tenho vários contos não terminados aqui, mas esse eu pretendo terminar. Também pretendo terminar os que estou devendo aqui num futuro próximo.

7 comentários:

  1. Cara muito bom. Gostei do seu estilo de escrita.

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    1. Muito grato. A parte 2 será postada logo. Volte sempre.

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  2. Tu escreve muito bem... deu pra imaginar toda a situação, a agonia, a realidade de ter que cuidar de quem antes cuidava da gente... Gostei muito, achei tocante!

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    1. Obrigado. A ideia foi essa. Avisarei quando a segunda parte estiver postada.

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  3. OLá!! gostei muito, fez-me lembrar a minha falecida mãe que morreu muito mais nova. Espero pela segunda parte.
    Obrigada

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    1. Obrigado, volte sempre. A segunda parte estará por aqui essa semana.

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  4. Muito bom! Sua escrita está ótima, super detalhista, o que nos aproxima dos sentimentos dos personagens e nos leva para dentro da situação! Senti uma agonia em quase todos os momentos, imaginando quantas pessoas passam por isso - tanto no papel de filha e no da mãe. Agora vou lá correndo ler a segunda parte!
    Abraços :)
    Debora.

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