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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Confissão no quarto 219 [Conto] - parte 1


Estava exausto e a única luz presente do lado de fora do restaurante escurecido, direcionada diretamente em meu rosto, fazia com que eu visse manchas coloridas por toda a comida; isso ou o frango grelhado estava com um caso sério de catapora e o arroz vencido há pelo menos um ano, torceria pela primeira opção. Além disso, havia um mosquito insistente que não queria deixar de circular meus braços, ora o direito ora o esquerdo, variando de acordo com qual braço eu usava para tentar abatê-lo, era um bicho provocador. Em uma de minhas tentativas, senti minha palma bater em seu corpo milimétrico, foi gratificante, mas o orgulho acabou quando percebi dois garçons assistindo o que pareciam ser minhas tentativas de levantar voo ou nadar em oxigênio.
            Estava completamente sozinho no restaurante do hotel – com exceção dos garçons que, mesmo que estivessem de costas para mim e conversando entre eles, minha mente insistia em me dizer que era de mim que eles riam, mesmo que nunca de fato os tivesse flagrado rindo -, até que outros dois hóspedes surgiram. Quarto 105, eles disseram ao garçom, que, ao ver gente se aproximando, deixou seu posto de gozador hipotético e veio atendê-los. Imediatamente o mais novo entre os dois tira de sua mochila um tablet e um desses celulares pós-ficção-científica capazes de ouvir, falar, tirar fotos, ler mentes, cozinhar, varrer, lavar, passar e, talvez com a devida – e cara – atualização, oferecer prazer oral para ambos os sexos, mesmo que não tenha boca – isto é outro aplicativo vendido separadamente e ainda mais caro que o primeiro.
            Posso não ser o melhor dos filhos, não sei quanto tempo faz desde a última vez que os telefonei – em retrospecto, pode ser que não tenha tanto tempo assim, creio que mal fez duas semanas, três no máximo -, mas nunca faria isso. Levantar todas essas paredes de telas eletrônicas em meio à refeição. Estou acostumado a uma relação de afeto reprimido com meu pai. Passamos horas em total silêncio em um mesmo lugar; quando falamos, é sobre qualquer coisa de trabalho ou assuntos muito vagos. Sentimos – eu sinto – um respeito mútuo ali, aquela ideia de seguir os passos dele – até agora esta parte do plano está indo bem, sou um funcionário fiel -, ainda com aquela vontade de ir um pouco além ao fazer o que ele não fez, como estudar e progredir na carreira, vontade para qual ele responde dizendo que não pôde estudar, enquanto eu tive tudo graças a ele, então eu replico dizendo que no momento sou eu quem estou me esforçando para manter a família e, ao que tudo indica, é assim que vai continuar, portanto paguei – estou pagando em longas parcelas – minhas dívidas, até que ele se ofende com a palavra dívidas, e eu me ofendo com sua ofensa. O respeito sempre se mantém, logo ao lado dessa competição bizarra e um tanto, tenho que admitir, absurda. Aqueles dois, que eu nem sabia se eram pai e filho, mas algo na atmosfera ao redor dos dois me dizia que eram – também eram parecidos o suficiente, daquele jeito que deixa bem claro que, décadas atrás, aquele senhor foi parecido com aquele jovem -, não havia nada daquilo entre aqueles dois, nenhum afeto disfarçado de hostilidade. Não havia nada, só duas telas brilhantes, enquanto um comia um sanduíche gigante, e o outro uma picanha ao alho cujo cheiro era perceptível a qualquer ponto da cidade. Do que eu sei, de qualquer forma? Concluo. Vai ver essa era a forma deles se conectarem.
            Isso me lembrou do quanto meu pai ficou orgulhoso quando soube que eu ia fazer essa viagem e como ela significava um crescimento para minha carreira. Toda aquela história de ir além, eu estava feliz por estar conseguindo, ele por se dizer responsável por isso. Naquele jantar solitário, depois de todas as reuniões estarem terminadas e só me restar pegar o avião de retorno na madrugada, não me sentia nem um pouco mais feliz. Nem mesmo tinha vontade de voltar para relatar meu possível sucesso, muito menos levantar da cama novamente.
Terminei a refeição. Ao me levantar, senti meu dedo mínimo queimar e coçar bem no primeiro ligamento, pouco acima da unha. Aquele filho da puta não morreu e se vingou. Eu precisava de uma bebida.
- Qual o quarto? – perguntou o garçom.
- Esse é por minha conta – estava viajando as custas da empresa -, deixa que eu pago na hora.
- O que vai ser então?
Dei uma olhada na variedade ou falta dela.
- White Horse com gelo.
- Quantas pedras?
- Duas.
Ele me serviu e disse que eu ficasse a vontade. Quis ficar de pé encostado ao balcão mesmo, pensando. Não tinha bebido nada alcoólico há dois meses, feito inédito para mim desde que saíra da casa dos meus pais há seis anos. Sentia falta. Como sempre, no entanto, meus problemas não estavam se resolvendo, eu ainda não tinha qualquer sensação de dever cumprido ou orgulho. Esvaziei o copo em pequenos goles, queria aproveitar aquele momento de reflexão vazia. Pedi mais outro e repeti o processo; dessa vez o álcool tinha me levado a exatamente o grau de iluminação necessário para explicar a razão da minha súbita melancolia. Era a quebra da rotina, o uísque me dizia, até ontem você ia trabalhar, saía para almoçar, voltava pouco tempo depois, ia para casa. De vez em quando via alguém, raramente ficava feliz por ver alguém. Agora estava acordando antes de o sol nascer para pegar aviões, visitando estados totalmente desconhecidos, cumprimentando gente supostamente importante – coisa que eu sempre me prometi nunca fazer -, passando a noite em hotéis, comendo em restaurantes; era muita informação e era sinistro, quase outra vida. Sentia-me sem identidade e, como se não bastasse, estava exausto, tendo dormido três horas nos últimos dois dias. Se dormisse, o dia seguinte seria mais leve, me prometeu o uísque, e eu o segui.

***
Juro que continua. Um dia desses. Esse pelo menos está terminado, só falta revisar o resto dele.

2 comentários:

  1. Por mais que opção ali decima, seja uma expressão que eu não costumo usar, porque sou fofa, haha, tive que admitir Bom pra ******, gostei muito, você descreve as coisas muito bem, e adorei a hora que você falou sobre o celular do garoto.
    Muuito bom, beijos, espero mais vizitas. hehe

    Que bom que gostou do poema, muitas vezes me sinto mal em postar, nem sempre as pessoas entendem o meu contexto. Gostei de você. :D

    caminhandoemmarte.blogspot.com.br

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    1. Não se preocupe, este é um blog pró liberdade, ninguém pensará menos de você por uma palavra. Palavras são ferramentas, não inimigas. Muito obrigado pelo comentário e pelos elogios, espero que você leia as próximas partes também, gostaria de ouvir sua opinião.

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caixa do afeto e da hostilidade