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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Três anos sem Michael Jackson ou Uma análise da hipérbole de caráter post mortem


 Lembro-me perfeitamente do momento de sua morte, não da noite em que ele partiu exatamente – estava ocupado e cansado demais naquela noite para me preocupar com isso -, mas da manhã seguinte, quando todos já estavam descansados e tiveram tempo de processar a notícia. Os jornais berravam - até mesmo os escritos - “Morre o rei do pop, Michael Jackson”, não só no dia seguinte, durante toda a semana, durante todo o mês e com alguns retornos esporádicos com o passar dos anos. Todos queriam expressar o quanto o amavam. Como nunca acreditaram que ele era, de verdade, um pedófilo – ele amava as crianças, mas o amor era platônico -, como ele queria mudar o mundo por meio de sua música e imensa criatividade, enfim todo o tipo de hipérbole de caráter post-mortem, tão comum para as celebridades.

Lembro, também, de parecer ser o único que não se comoveu nem um pouco com todos os escândalos dos fãs, que choravam mesmo não tendo ouvido uma música do cidadão desde 1992, ou até ouviram, mas não gostaram tanto assim. Pelo menos não gostaram até a sua morte, depois disso toda a sua obra tornou-se perfeita, isenta de erros, capaz de ensinar música a Bach. Vendeu álbuns e mais álbuns, pagou seus milhões de dólares em dívidas em poucas semanas. Mas o dinheiro e as vendas não são nada. O moleque, que até então, jurava ter sido estuprado pelo artista, veio a público e admitiu sua mentira, isentando-o não só os defeitos de sua música, mas até mesmo de crimes, antes considerados imperdoáveis. Chamem o Papa, temos aqui o grande milagre do terceiro milênio, presenciamos a transformação da imagem pública de um homem, indo de completo canalha a santo, em menos de quarenta e oito horas.

Que não me entendam mal os senhores, pensando que eu estou a fazer acusações infundadas e dizer que ele não foi merecedor de toda essa pompa. Não faria tal coisa, nem mesmo após tantos anos de atraso. Diria que ele é superestimado, na melhor das hipóteses, musicalmente falando. É verdade que ele e sua música foram uma revolução na música pop, mas não acho que isso foi bom. Sua dita revolução deu espaço e influência para músicos atuais, de Madonna a Lady Gaga – alguém, que leve música a sério, realmente acha que isso foi algo bom? Suas composições são simples e sua voz nada especial. Mesmo nos anos de Soul e do Jackson 5, era engraçadinho, pois se tratava de uma criança, mas os anos passaram e mal pode-se dizer que houve algum amadurecimento da parte dele, contudo sinto que estou escrevendo apenas para cuspir no túmulo do pobre homem e esse não é meu objetivo aqui, na verdade esse nem é um texto sobre Michael Jackson, nem eu ousaria dedicar todo um texto a uma crítica de sua obra – já tenho inimigos o suficiente.

O caso do Michael Jackson não é único. O ponto alto da carreira de todo e qualquer artista, assim como o momento de absolvição de todos os seus pecados, é após a morte. Nenhum outro ser humano tem tal privilégio, é uma das vantagens de se tornar um artista. Algo similar aconteceu com Elvis. Ao morrer, Elvis tornou-se de verdade o rei do rock, antes ele já tinha o título, mas era tão válido quanto o do Roberto Carlos (outro que quando morrer causara escândalo). Hoje existem grupos de pessoas que acham que Elvis era o ser humano perfeito, não acreditam que ele morreu, não acreditam que ele usava drogas, não acreditam em nada que comprometa a imagem santa do cidadão. O fato de que sua carreira é baseada em imitações “clean” caucasianas de blues e rock negros, foi completamente varrido para debaixo do tapete (só os mais honestos admitem que, ele não foi nada além de um aproveitador) e alguns filmes “American way” de qualidade duvidosa. É uma heresia dizer coisas assim, alienação, ser manipulado pela mídia, quando, na verdade, é justamente o contrário. Aquele que cai na historinha do ídolo santo é o verdadeiro manipulado, é ele que, mesmo depois de décadas ignorando um artista, pede perdão após a morte deste e compra tudo que seu orçamento permite, ou muito mais, cds, camisetas, livros, vídeos, além da audiência dada aos programas jornalísticos dedicados a morte desses que antes eram medíocres, mas seu potencial para canonização os levou a grandeza.

São inúmeros os casos, não só MJ e Elvis, mas não quero tornar isso uma série de ataques aleatórios e gratuitos a nomes famosos, apenas tentar, aos poucos, abrir os olhos daqueles que ainda acreditam nesse tipo de coisa. Mostrar que ninguém é perfeito e nem se torna após a morte – melhor nem mencionar Jesus, que é o exemplo clássico do assunto dessa crônica, “hipérbole de caráter post mortem” (é um bom nome para esse fenômeno, com um toque de latim para tornar científico e sociológico) -. Sem que isso não vai acabar, as pessoas precisam de ídolos, e essas palavras são apenas reclamações vazias. Resta-me apenas aguardar o dia que as drogas de Keith Richards serão justificadas como medicinais, as putas de Mick Jagger serão um mal-entendido e tocar no túmulo de Roberto Carlos curará câncer.

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